Construção da crítica à oceanografia clássica: contribuições a partir da oceanografia socioambiental

Autores

  • Gustavo Goulart Moreira Moura UFPA

DOI:

https://doi.org/10.14295/ambeduc.v24i2.9728

Resumo

RESUMO Muitos pesquisadores das áreas clássicas da Oceanografia negam as humanidades na ciência oceanográfica, apesar de historicamente terem dialogado com o que há de mais conservador nas ciências humanas e sociais aplicadas. Na virada para o século XXI, diversos pesquisadores têm criado novas formas de fazer oceanografia dentro do marco do socioambientalismo, após várias iniciativas nas instituições mais antigas de Oceanografia Clássica do Brasil nas décadas de 1980-90 no campo da Educação Ambiental. Esta Nova Oceanografia, ou Oceanografia Socioambiental (OS), surge em oposição às áreas clássicas da Oceanografia criando campos de disputa em linhas de pesquisa já existentes e produzindo linhas de pesquisa próprias, como a História Oceanográfica, a Etnooceanografia, o Gerenciamento Costeiro Pós/decolonial e a Educação Ambiental Marinho-Costeira crítica (EAMC), por exemplo. Este artigo tem o objetivo de construir algumas críticas à Oceanografia Clássica em uma perspectiva da OS, definindo preliminarmente o objeto de pesquisa desta nova oceanografia e apontando suas contribuições para a EAMC. Ao definir este objeto, aponta-se que a produção de maritimidades engajadas em contextos de conflitos socioambientais junto a povos e comunidades tradicionais pode ser uma das diretrizes da Educação Ambiental Marinho-Costeira crítica. Palavras-chave: Oceanografia Socioambiental, Educação Ambiental Marinho-Costeira crítica, Povos e Comunidades Tradicionais. ABSTRACT Several researchers working in classic Oceanography fields deny the Humanities in the Oceanography Science, despite having established a dialogue with the most conservative approaches in both Social Sciences and Applied Social Sciences. At the turn of the 21st century, several researchers are creating new forms of Oceanography inside a socio-environmentalism framework, after many initiatives of the Environmental Education field conducted by some of the oldest Classical Oceanography institutions in Brazil during the 80’s and 90’s. This New Oceanography, or a Socio-Environmental Oceanography, emerges in opposition to the classic areas in Oceanography, creating disputes in the research area that already exist and producing its own research lines, like Oceanography History, Etno-Oceanography, Postcolonial or Decolonial Coastal Management, and Costal-Marine Environmental Education, for example. This paper aims to identify and discuss some of the main epistemological bases of Classical Oceanography and Socio-Environmental Oceanography. When defining this object of study, we emphasize that the production of engaged maritimities in the context of socio-environmental conflicts among traditional communities and peoples could be one of the main guides to critical Costal-Marine Environmental Education. Keywords: Socio-Environmental Oceanography; Critical Costal-Marine Environmental Education; Traditional Communities and Peoples

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

BENSON, K. R.; REHBOCK P. F. (ed.). Oceanographic history: The pacific and beyond. Seattle: University of Washington Press, 2002.

BONFIL, G. et al. America Latina: etnodesarrollo y etnocidio. San José: Ediciones Flacso, 1982.

DEB, D. Beyond developmentality: constructing inclusive freedom and sustainability. London: Earthscan, 2009.

DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec/NUPAUB, 2004.

DIRKS, N. B. Introduction: Colonialism and culture. In: DIRKS, N. B. (ed.). Colonialism and culture. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1992. p. 1-25.

DIRKS, N. B. Foreword. In: COHN, B. S. Colonialism and its forms of knowledge: the British in India. Princeton: Princeton University Press, 1996. p. IX-XVII.

DUTRA, L. H. A. Introdução à epistemologia. São Paulo: Editora da Unesp, 2010.

EAGLETON, T. A idéia de cultura. São Paulo: Editora da Unesp, 2005.

EIDELWEIN, T. Pachamama como sujeito de direitos. In: I Congresso Internacional de Direito Público dos Direitos Humanos e Políticas de Igualdade, 2018, Maceió. Anais… Maceió: UFAL, v.1, n.1, 2018, p. 1-3. Disponível em http://www.seer.ufal.br/index.php/dphpi/article/view/5741/4011. Acesso em 24 de nov. 2019.

FEYERABEND, P. Contra o método. Tradução Cezar Augusto Mortari, São Paulo: Editora da UNESP, 2007.

FORTI, A. O nascimento da ciência moderna e a liberdade de pensamento. In: MAYOR, F.; FORTI, A. Ciência e poder. Campinas: Papirus. 1998. p. 33-41.

FRANKLIN, S.. Making transparencies: seeing through the science wars. In: ROSS, A. (ed.). Science Wars. Durham: Duke University Press, 1996. p. 151-167.

GASALLA, M. A.; DIEGUES, A. C.. People sea’s: “Ethno-oceanography” as an Interdisciplinary Means to Approach Marine Ecosystem Change. In: OMMER, R. E. et al.. (Eds.). World fisheries: a social-ecological analysis. Chichester (UK)/Ames (USA): Blackwell publisher, 2011, p. 120-136.

GORDON, H. S. An economic approach to the optimum utilization of fishery resources. Journal of the Fisheries Research Board of Canada, vol. 10, n. 7, p. 442-457, jul. 1953.

____________. The economic theory of a common property resource: the fishery. Journal of Political Economy, v. 62, n. 2, p. 124-142, abr. 1954.

GRINDE, D. A.; JOHANSEN, B. E. Ecocide of native america: environmental destruction of Indian lands and peoples. Santa Fe: Clear Light, 1995.

HARDIN, G. The tragedy of the commons. Science, v. 162, [s. n.], p. 1243-1248, dez. 1968.

HOPPERS, C. A. O. Introduction. In: HOPPERS, C. A. O. Indigenous knowledge and the integration of knowledge systems: towards a philosophy of articulation. Claremont:University of Pretoria/New Africa Books, 2002. p. vii-xiv.

IDYLL, C. P.; KASAHARA, H. Food from the sea. In: IDYLL, C. P. (ed.). Exploring the ocean world: a history of oceanography. Nova York: Crowell, 1972. p. 130-147.

INGOLD, T. The perception of the environment: essays on livelihood, dwelling and skill. London/New York: Routledge, 2000. 465p.

JACQUES, P. J. The social oceanography of top oceanic predators and the decline of sharks: a call for a new field. Progress in Oceanography, v. 86, p. 192-203, 2010.

KROLL, G. American’s ocean wilderness: a cultural history of twentieth-century exploration. Lawrence: University Press of Kansas, 2008.

LALLI, C. M.; PARSONS, T. R. Biological Oceanography: an Introduction. Oxford: Pergamon Press, 1993.

LEACH, E. Cultura/culturas. In: ROMANO, R. Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985, p. 102-135 (Coleção Anthropos – Homem).

LÉVI-STRAUSS, C. O pensamento selvagem. São Paulo: Editora Nacional, 1976.

LEWONTIN R. C. et al. Biologia como ideologia: a doutrina do DNA. São Paulo: Funcep, 2010.

MCGOODWIN J. R. Crisis in the world's fisheries: people, problems and policies. Stanford: Stanford University Press, 1990.

MERLEAU-PONTY, M. Conversas – 1948. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

MERZ, J. T. A history of european thought in the nineteenth century. Michigan: University of Michigan Press. 1903. (vol. 2).

MIGNOLO, W. Os esplendores e a miséria da ciência: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica. In: SANTOS, B. S. (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2004. p. 667-709.

MITCHELL, M. Complexity: a guided tour. Oxford: Oxford University Press, 2009.

MOURA, G. G. M. Águas da Coréia: pescadores, espaço e tempo na construção de um território de pesca na Lagoa dos Patos (RS) numa perspectiva etnooceanográfica. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Departamento de Ciência Ambiental, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

___________. Águas da Coréia: uma viagem ao centro do mundo em uma perspectiva etnooceanográfica. Recife: Nuppeea/Fapesp, 2012.

___________. Guerras nos mares do sul: a produção de uma monocultura marítima e os processos de resistência. Tese (Doutorado em Ciência Ambiental) - Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

___________. Introdução: Avanços em Oceanografia Humana e o socioambientalismo nas ciências do mar. In: MOURA, G. G. M. (Org.). Avanços em Oceanografia Humana: o Socioambientalismo nas ciências do mar. Jundiaí: Paco Editorial, 2017a, pp. 07-48.

___________. Guerras nos mares do sul: o papel da oceanografia na destruição de territórios tradicionais de pesca. São Paulo: Annablume Editora, 2017b.

___________. Manejo de mundos e gerenciamento costeiro na Amazônia: reflexões a partir de um diálogo entre etnooceanografia e etnodesenvolvimento. In: COSTA, J. M. (Org.). Amazônia: olhares sobre o território e a região. Rio de Janeiro: Autobiografia/Unifap, pp. 257-296.

MOURA, G. G. M.; DIEGUES, A. C.. Os conhecimentos tradicional e científico do Saco do Arraial, estuário da Lagoa dos Patos (RS). Boletim do Instituto de Pesca (Online), [s.l.], v. 35, n. 3, p. 359-372, 2009. Disponível em: <http://www.pesca.sp.gov.br/sumario35_3.php >. Acesso em 27 out. 2011.

MOURA, G. G. M.; KALIKOSKI, D. C.; DIEGUES, A. C. A resource management scenario for traditional and scientific management of pink shrimp (Farfantepenaeus paulensis) in the Patos Lagoon estuary (RS), Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, v. 9, n. 6, p. 1-18, 2013. Disponível em: <http://www.ethnobiomed.com/content/9/1/6>. Acesso em 07 out. 2013.

NARCHI, N. E.. Una oceanografía social. Boletín de la Asociación de Oceanólogos de México (ASOCEAN), 2010. Disponível em: <http://asocean.org.mx/boletin/boletin-06.htm>. Acesso em 24 nov. 2019.

NARCHI, N. E. et al.. Marine Ethnobiology a Rather Neglected Area, which Can Provide an Important Contribution to Ocean and Coastal Management. Ocean and Coastal Management, n. 89, 2014, pp. 117-126.

__________. El CoLaboratorio de Oceanografía Social: espacio plural para la conservación integral de los mares y las sociedades costeras. Ambiente y Sociedad, n. 18, v. 7, 2018, pp. 285-301.

PANZARINI, R. Introducción a la oceanografia general. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires, 1970.

PARSONS G. The uses and abuses of scientific expertise in English inshore oyster fishery, 1860-1910. In: BENSON, K. R.; REHBOCK P. F. (ed.). Oceanographic history: The pacific and beyond. Seattle: University of Washington Press, 2002, p.392-404.

PAULY, D. Anecdotes and the shifting baseline syndrome of fisheries. Elservier Science LTD. Trends in Ecology and Evolution, v. 10, n. 10, p. 430, 1995.

PINET, P. R. Invitation to Oceanography. London: Jones and Bartlett Publishers, 1999.

PRATT, M. L. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Tradução de Jézio Hernani Bonfin Gutierre. Bauru: Edusc, 1999.

PRIGOGINE, I. Prefácio. In: MAYOR, F.; FORTI, A. Ciência e poder. Campinas: Papirus, 1998. p. 11-14.

ROBERTS, C. The unnatural history of the sea: the past and future of humanity and fishing. London: Gaia Thinking, 2007.

ROSS, A. Introduction. In: ROSS, A. (ed.). Science Wars. Durham: Duke University Press, 1996. p. 01-15.

SAFINA, C. A shoreline remembrance. In: JACKSON, J. B. C.; ALEXANDER, K.; SALA, E. (eds.). Shifting baselines: the past and the future of the ocean fisheries. Washington; Colvelo; London: Island Press, 2011, p. 13-20.

SANTILLI, J. Socioambientalismo e novos direitos: proteção jurídica à diversidade biológica e cultural. São Paulo: Editora Peirópolis, 2005.

SANTOS, B. S. Introdução. In: SANTOS, B. S. (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2004. p. 17-56.

SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. G.; NUNES, J. A. Introdução: para ampliar o cânone da ciência: a diversidade epistemológica do mundo. In: SANTOS, B. S. (org). Semear outras soluções: os caminhos da biodiversidade e dos conhecimentos rivais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 21-121.

SANTOS, M. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: EDUSP, 2001.

SCHMALZ, M. A. Identificando a área socioambiental na oceanografia: um estudo de caso do curso de graduação do Centro de Estudos do Mar - CEM/UFPR. Monografia de graduação (Bacharelado em Oceanografia) - Departamento de Oceanografia, Universidade Federal do Pará, Pontal do Paraná, 2007.

SHIVA, V. Monoculturas da mente: perspectiva da biodiversidade da biotechnologia. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Gaia, 2003.

SMITH, M. E. Fisheries management: intended results and unintended consequences. In: MAIOLO, J. R.; ORBACH, M. K. (eds.). Modernization and Marine Fisheries Policy. Ann Arbor: Ann Arbor Science, 1982. p. 57-94.

STEINBERG, P. E. The Social Construction of the Ocean. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. (Cambridge Studies in International Relations, v. 78).

STEPAN, N. L. A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

STOCKING JR., G. W. Colonial situations. In: STOCKING JR., G. W. (ed.). Colonial situations: essays on the contextualization of ethnographic knowledge. Madison: University of Wisconsin Press, 1991, p. 3-8. (History of anthropology, vol. 7).

THE ECONOMIST. The tragedy of the oceans. (overfishing) (Cover Story). 1994. Disponível em: <https://www.highbeam.com>. Acesso em: 21 out. 2016.

THOMAS, N. Colonialism’s culture: anthropology, travel and government. Cambridge: Polity Press, 1994.

TURNBULL, D. Mason, trickers and cartographers: comparative studies in the sociology of scientific and indigenous knowledge. London/New York: Routledge, 2000.

VIEIRA, P. F., BERKES, F., SEIXAS, C. Gestão integrada e participativa de recursos naturais: conceitos, métodos e experiências. Florianópolis: Secco/APED, 2005.

WEIHAUPT, J. G. Exploration of the oceans: an introduction to oceanography. New York: Macmillan, 1979.

WHITT, L. Science, colonialism and indigenous people: the cultural politics of law and knowledge. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

Downloads

Publicado

2019-12-05

Como Citar

Moura, G. G. M. (2019). Construção da crítica à oceanografia clássica: contribuições a partir da oceanografia socioambiental. Ambiente &Amp; Educação, 24(2), 13–41. https://doi.org/10.14295/ambeduc.v24i2.9728

Edição

Seção

Dossiê “A Educação Ambiental em uma perspectiva da Oceanografia Socioambiental”