Mbabuçú Oiconê: a profecia de Felicitas, tempo e história nas reduções do Paraguai

Autores

  • Max Roberto Pereira Ribeiro Escola Técnica Estadual Portão

DOI:

https://doi.org/10.14295/rbhcs.v10i19.494

Palavras-chave:

Guarani. Tempo. Missões

Resumo

Este artigo tem por finalidade expor um ensaio sobre a concepção de tempo elaborada por indígenas das reduções do Paraguai no século XVIII. Naquele contexto, especialmente na metade daquele século, houveram inúmeros conflitos entre indígenas guaranis e militares ibéricos que faziam a demarcação de novas fronteiras coloniais estabelecidas entre Portugal e Espanha, fato que contou com grande resistência indígena. Tudo aquilo em decorrência do Tratado de Madrid que alterava dramaticamente a geografia da província do Paraguai a ponto de exigir dos guaranis que evacuassem sete povoações que seriam entregues aos portugueses. Aquele episódio foi visto pelos guaranis como uma grande catástrofe, visto que teriam que deixar para trás suas comunidades. Durante o período de demarcação, o jesuíta Bernardo Nusdorffer foi encarregado de organizar o translado dos indígenas à parte colonial espanhola. Em meio a guerra e ao grande número de indígenas mortos, Nusdorffer se utilizou de uma profecia feita por uma velha guarani, em 1733, para interpretar aqueles acontecimentos. Seu nome era Felicitas, a quem Nusdorffer havia conhecido pessoalmente; mulher que teria feito um terrível prognóstico sobre o futuro das reduções. Este relato, recuperado pelo jesuíta, serve de matéria prima a este artigo. Através de algumas noções do paradigma indiciário de Carlo Ginzburg, ou seja, do catálogo de indícios, o texto busca apresentar um modelo interpretativo para a noção de tempo que teria permitido à Felicitas elaborar um esquema de projeção de futuro capaz de oportunizar a previsão de acontecimentos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Max Roberto Pereira Ribeiro, Escola Técnica Estadual Portão

Graduação em História pela UNIFRA, mestre em História pela UFRGS, doutor em História pela UNISINOS. Professor da rede estadual de Ensino no estado do Rio Grande do Sul. Professor da Escola Técnica Estadual Portão.

Referências

BAPTISTA, Jean. Fomes, Pestes e Guerras: dinâmicas dos povoados missionais em tempos de crise (1610-1750). 2007. 381 f. Tese. (Doutorado em História) – PPGH, PUCRS, Porto Alegre, RS, 2007.

BURD, Rafael. De Alferes a Corregedor: a trajetória de Sepé Tiarajú durante a demarcação de limites na América Meridional (1752-1761). 2012. 152 f. Dissertação (Mestrado em História) –IFCH- Programa de Pós-Graduação em História, UFRGS, Porto Alegre, RS, 2012.
CORTESÃO, Jaime. Do Tratado de Madrid à Conquista dos Sete Povos (1750-1802). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1969.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

FELIPPE, Guilherme Galhegos. A Cosmologia Construída de Fora: a relação com o outro como forma de produção social entre os grupos chaquenhos. 2013. 268 f. Tese (Doutorado em História) – PPGH, UNISINOS, São Leopoldo, RS, 2013.

FLECK, Eliane Cristina Deckmann. Sentir, Adoecer e Morrer: sensibilidade e devoção no discurso missionário jesuítico do século XVII. 1999. 334 f. Tese (Doutorado em História) – IFCH, PUCRS, Porto Alegre, RS, 1999.

GARCIA, Elisa Frühauf. As Diversas Formas de Ser Índio: políticas indígenas e políticas indigenistas no Extremo Sul da América Portuguesa. 2007. 320f. Tese (Doutorado em História) – PPGH, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, 2007.

GÊNESIS. In: Bíblia Online. Disponível em: <http://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/11>.

GINZBURG, Carlo. Sinais, raízes de um paradigma indiciário. In: GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas e Sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

GINZBURG, Carlo. O Inquisidor como Antropólogo. In: GINZBURG, Carlo. O fio e os Rastros: Verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007a

GINZBURG, Carlo. Provas e Possibilidades. In: GINZBURG, Carlo. O fio e os Rastros. Verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007a.

JACKSON, Robert H. Comprendiendo los efectos de las enfermedades del Viejo Mundo en los nativos americanos: la viruela en las Misiones Jesuíticas de Paraguay. IHS. Antiguos jesuitas en Iberoamérica. vol. 2, nº 2, 2014.

LÉVI-STRAUSS, Jean Claude. Mito e Significado. Lisboa: Edições 70, 2007.

LÉVI-STRAUSS. Jean. Claude. O Pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. Originalmente publicado em 1962.

MENDES, Isackson Luiz Cavilha. As Mulheres nos Relatos Jesuíticos da Província do Paraguai (1609-1768). 2013. 131f. Dissertação. (Mestrado em História) IFCH- Programa de Pós-Graduação em História, UFRGS, Porto Alegre, RS, 2013.

NEUMANN, Eduardo Santos. O trabalho guarani-missioneiro no rio da Prata colonial –1640/1750. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1996.

NEUMANN, Eduardo. Práticas letradas Guarani: produção e usos da escrita indígena (Séculos XVII e XVIII). 2005. 381 f. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, 2005.

RIBEIRO, Max R. P. “A terra natural desta Nação Guarani”: Identidade, Memória e Reprodução Social Indígena No Vale Do Jacuí (1750-1801). 2017. 269f. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, UNISINOS, São Leopoldo, RS, 2017.

RICŒUR, Paul. A Memória, a História, o Esquecimento. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. Originalmente publicado em 2000.

SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

SAINT-HILAIRE, August de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002.

SEPP, Antonio. Viagem as Missões Jesuíticas e Missões Apostólicas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1980.

Downloads

Publicado

2018-08-21

Como Citar

Ribeiro, M. R. P. (2018). Mbabuçú Oiconê: a profecia de Felicitas, tempo e história nas reduções do Paraguai. Revista Brasileira De História &Amp; Ciências Sociais, 10(19), 146–168. https://doi.org/10.14295/rbhcs.v10i19.494