Violência epistêmica e socioambiental

como a colonialidade sustenta o extrativismo

Autores

  • Liz Rejane Issberner Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
  • Philippe Léna

DOI:

https://doi.org/10.63595/rcn.v8i1.20198

Palavras-chave:

neoextrativismo, colonialidade, pensamento decolonial, conflitos socioambientais, Brasil

Resumo

Este artigo analisa os conflitos socioambientais no Brasil recentes a partir da articulação entre o pensamento decolonial e a crítica ao modelo extrativista. Argumenta-se que o avanço do neoextrativismo, intensificado durante o governo Bolsonaro, está profundamente enraizado na lógica da colonialidade, que legitima a exploração econômica e naturaliza a violência contra populações e territórios considerados descartáveis. A pesquisa adota abordagem qualitativa e crítico-interpretativa, fundamentada na ecologia política latino-americana, combinando revisão bibliográfica e análise documental de políticas públicas, retrocessos institucionais e registros de conflitos. A análise é orientada por cinco categorias centrais: colonialidade do poder, zonas de sacrifício, violência epistêmica, extrativismo econômico e resistência decolonial. Essas categorias permitem compreender o extrativismo não apenas como sistema de acumulação capitalista, mas também como regime de legitimação da violência física e simbólica. Ao evidenciar as conexões entre dominação, exploração e resistência, o artigo contribui para a formulação de uma estrutura interpretativa crítica sobre os impactos socioambientais do capitalismo global de fronteira na América Latina.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ACOSTA, A. Extractivism and neoextractivism: two sides of the same curse. In: LANG, M.;

MOKRANI, D. (Coords.). Beyond Development: alternative visions from Latin America. Amsterdam/Quito: Transnational Institute Rosa Luxemburg Foundation, 2013.

ACSELRAD, H.; MELLO, C. C. do A.; BEZERRA, G. das N. O que é justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

ALMEIDA, Al. W. B. de. Agroestratégias e desterritorialização: os direitos territoriais e étnicos na mira dos estrategistas dos agronegócios. Manaus: Editora da UEA, 2019.

ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.

ALVES, V. E. L. Expansão do Agronegócio e os Impactos Socioambientais na Região de Cerrados do Centro-Norte do Brasil (MATOPIBA), Confins [En ligne], 45 | 2020. Disponível em: http://journals.openedition.org/confins/28049 ; DOI : https://doi.org/10.4000/confins.28049. Acesso em 20 jun. 2025.

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB. Relatório de Violências contra Povos Indígenas do Brasil – Dados de 2019. Brasília: APIB, 2020. Disponível em: https://apiboficial.org/ Acesso em 02 jul. 2025.

BRIGHENTI, C. Colonialidade do poder e a violência contra os povos indígenas. PerCursos, Florianópolis, v. 16, n. 32, p. 103–120, 2016. DOI: 10.5965/1984724616322015103. Disponível em: https://periodicos.udesc.br/index.php/percursos/article/view/1984724616322015103. Acesso em: 28 ago. 2025

CAHEN, M. Le retour du Brésil colonial. Libération, 03 de julho de 2019. Disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2019/07/02/le-retour-du-bresil-colonial_1737589 Acesso em 11, junho, 2020.

CIMI - Conselho Indigenista Missionário. Relatório: Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2019. Brasília: CIMI, 2020.

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CPT. Conflitos no Campo Brasil 2022. Goiânia: CPT Nacional, 2020; 2022.

DUSSEL, E. “Europa, modernidad y eurocentrismo”, In: LANDER, E. (org) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000, 248 p.

ESCOBAR, A. Sentir-Pensar com a Terra: novas epistemologias e práticas de política ambiental. São Paulo: Elefante, 2015.

ESCOBAR, A. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.

FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1978.

FURTADO, C. Formação econômica do Brasil. 17. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.

FURTADO, C. O Brasil Pós-milagre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

GLOBAL WITNESS. Defending tomorrow: The climate crisis and threats against land and environmental defenders. Global Witness, Londres, 2020.

GONZALEZ, L. Por um feminismo afro-latino-americano. In: HOLLANDA, H. B. de (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 1988.

GORENDER, J. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1988.

GRAY, K.; GILLS, B. K. South–South cooperation and the rise of the Global South. Third World Quarterly, 37(4), 2016. 557–574. https://doi.org/10.1080/01436597.2015.1128817

GROSFOGUEL, R. Del extractivismo económico al extractivismo epistémico y extractivismo ontológico. Una forma destructiva de conocer, ser y estar en el mundo. Tabula Rasa, No.24: 123-143, enero-junio 2016.

GUDYNAS, E. Debates on development and its alternatives in Latin America. A brief heterodox guide. In: Beyond Development Alternative visions from Latin America (Orgs) LANG, M.; MOKRANI, D. Quito: Fundación Rosa Luxemburgo, 2013.

GUDYNAS, E. Estado compensador y nuevos extractivismos: Las ambivalencias del progresismo sudamericano. Nueva Sociedad No. 237, 2012.

GUDYNAS, E. The new extractivism of the 21st century: ten urgent theses about extractivism. Relation to Current South American Progressivism. Washington D. C.: Center for International Policy, 2010.

GUDYNAS, E. Extractivismos: ecología, economía y política de un modo de entender el desarrollo y la naturaleza. Cochabamba: CLAES/CEDIB, 2010.

HARVEY, D. Seventeen contradictions and the end of capitalism. London: Profile Books Lted, 2014.

HARVEY, D.O Novo Imperialismo. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005.

KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LANDER. E. Ciencias sociales: saberes coloniales y eurocéntrico. In: LANDER (org) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000, 248 p.

LÉNA, P.; ISSBERNER, L. R. Desafios para o Brasil em Tempos de Antropoceno In: May, P. (Ed.) Economia do meio ambiente: teoria e prática. 3a. ed. Rio de Janeiro, Elsevier, 2018.

LUGONES, M. Colonialidad y género. Tabula Rasa, Bogotá (Colombia), n. 9, p. 73–101, jul./dez. 2008. Disponível em: Tabula Rasa – U. Colegio Mayor de Cundinamarca.

MACHADO ARÁOZ, H. Ecología política de los regímenes extractivistas. De reconfiguraciones imperiales y re-ex-sistencias descoloniales en Nuestra América. Bajo el Volcán, Universidad Autónoma de Puebla, 15 [23], 2015.

MACHADO ARÁOZ, H. La ‘Naturaleza’ como objeto colonial: Una mirada desde la condición eco-bio-política del colonialismo contemporáneo. Boletín Onteaikén, 10, 35-47, 2010.

MACHADO ARÁOZ, H. La colonialidad de la naturaleza: una aproximación a la ecología política latinoamericana. In: ALIMONDA, H.; TORO PÉREZ, C.; MARTÍN, S. (orgs.). Ecología política latinoamericana: pensamiento crítico, diferencia latinoamericana y rearticulación epistémica. Buenos Aires: CLACSO, 2016a. p. 163-198.

MACHADO ARÁOZ, H. O debate sobre o “extrativismo” em tempos de ressaca: a natureza americana e a ordem colonial. In: LANG, M. (org.). Descolonizar o imaginário. debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2016b.

MALDONADO-TORRES, N. Sobre la colonialidad del ser: contribuciones al desarrollo de un concepto”, In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (coords.) El giro decolonial: reflexiones para uma diversidad epistêmica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre, 2007.

MARTINS, J. de S. O poder do atraso: ensaios de sociologia da história lenta. São Paulo: Hucitec, 1997.

MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & ensaios, n. 32, p. 122-151, 2016.

MIGNOLO, W. Desobediencia epistémica: retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad, gramática de la descolonialidad. Buenos Aires: ediciones Del Signo, 2010.

MIGNOLO, W. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options. Durham: Duke University Press, 2011.

MIGNOLO, W. El pensamiento decolonial: desprendimiento y apertura. Un manifiesto. In: S. Castro y R. Grosfoguel (Eds.), El giro decolonial. Reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global (pp. 25-46). Bogotá: Siglo del Hombre, 2007.

MOORE, J. Nature in the limits to capital (and vice-versa). Radical Philosophy, 193 (sept-oct 2015), p. 9-19, 2015.

NUNES, E. de O. A Gramática Política do Brasil: Clientelismo e insulamento Burocrático, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Brasília, DF; ENAP, 1997.

O’CONNOR, J. The Fiscal Crisis of the State. New York: St. Martin’s Press, 1973.

PORTO-GONÇALVES, C. W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

PRADO JÚNIOR, C. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2000.

QUIJANO, A. “Bien vivir”: entre el “desarrollo” y la des/colonialidad del poder. Viento Sur, No. 122, mayo, 2012.

QUIJANO, A. Colonialidad del Poder y Clasificación Social. Journal of World-Systems Research, vi, 2, summer/fall 2000, 342-386.

QUIJANO, A. Colonialidad y Modernidad/Racionalidad. Perú Indígena, 13 (29), 11-29. 1991.

QUIJANO, A. Raza, Etnia, Nación: Cuestiones Abiertas. In: Forgues, Roland (ed.) José Carlos Mariátegui y Europa. El outro aspecto del Descubrimiento. Lima: Amauta. 1992.

QUINTERO, P. ; FIGUEIRA, P. ; ELIZALDE, P. C. Uma breve história dos estudos decoloniais. In: Masp AfterAll - Arte e Descolonização. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo, 2019. Disponível em: <https://assets.masp.org.br/uploads/temp/temp-QE1LhobgtE4MbKZhc8Jv.pdf> Acesso em: 11 jan. 2024.

ROBBINS, P. Political Ecology. Chichester: John Wiley & Sons Ltd, UK, 2012.

SALLEH, A. 'We in the North are the Biggest Problem for the South: A Conversation with Hilkka Pietila', Capitalism Nature Socialism, Vol. 17, No. 1, 2006, 44-61.

SANTOS, B. de S. O fim do império cognitivo. São Paulo: Autêntica, 2019.

SILVA, R. G. S.; SILVA, V. P. Os atingidos por barragens: reflexões e discussões teóricas e os atingidos do Assentamento Olhos D'água em Uberlândia-MG. Sociedade & Natureza, Uberlândia, v. 23, n. 2, p. 397-408, 2011.

SHIVA, V. Monocultures of the Mind: Perspectives on Biodiversity and Biotechnology. London: Zed Books, 1993

SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

SPARKE, M. Everywhere But Always Somewhere: Critical Geographies of the Global South. The Global South, vol. 1 no. 1, 2007, p. 117-126. Project MUSE, https://dx.doi.org/10.2979/gso.2007.1.1.117.

SPIVAK, G. C. Can the Subaltern Speak? In: ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (Org.). The Post-Colonial Studies Reader. London: Routledge, 1995. p. 24–28.

SVAMPA, M. Las fronteras del neoextractivismo en América Latina: conflictos socioambientales, giro ecoterritorial y nuevas dependencias. Guadalajara: CALAS, 2019.

WALSH, C. Interculturalidad crítica y pedagogía de-colonial: Apuestas (des)de el in-surgir, re-existir y re-vivir. Tomo I. Quito: Abya-Yala, 2012.

ZHOURI, A. Justiça ambiental, diversidade cultural e accountability. Revista Brasileira de Ciências Sociais. V. 23, n. 68, p. 97-107, out. 2008.

ZHOURI, A.; ZUCARELLI, M. C. Visões da resistência: conflitos ambientais no Vale do Jequitinhonha. In: SOUZA, J. V. A.; HENRIQUES, M. S. (Org.). Vale do Jequitinhonha: formação histórica, populações e movimentos. Belo Horizonte: UFMG, Proex, 2010. p. p. 109-236.

Downloads

Publicado

2026-04-27

Como Citar

ISSBERNER, Liz Rejane; LÉNA , Philippe. Violência epistêmica e socioambiental: como a colonialidade sustenta o extrativismo. Campos Neutrais - Revista Latino-Americana de Relações Internacionais, Rio Grande, RS, v. 8, n. 1, p. 12–34, 2026. DOI: 10.63595/rcn.v8i1.20198. Disponível em: https://periodicos.furg.br/cn/article/view/20198. Acesso em: 11 maio. 2026.

Edição

Seção

Dossiê: Políticas públicas, Meio Ambiente, Informação e Desenvolvimento