Violência epistêmica e socioambiental
como a colonialidade sustenta o extrativismo
DOI:
https://doi.org/10.63595/rcn.v8i1.20198Palavras-chave:
neoextrativismo, colonialidade, pensamento decolonial, conflitos socioambientais, BrasilResumo
Este artigo analisa os conflitos socioambientais no Brasil recentes a partir da articulação entre o pensamento decolonial e a crítica ao modelo extrativista. Argumenta-se que o avanço do neoextrativismo, intensificado durante o governo Bolsonaro, está profundamente enraizado na lógica da colonialidade, que legitima a exploração econômica e naturaliza a violência contra populações e territórios considerados descartáveis. A pesquisa adota abordagem qualitativa e crítico-interpretativa, fundamentada na ecologia política latino-americana, combinando revisão bibliográfica e análise documental de políticas públicas, retrocessos institucionais e registros de conflitos. A análise é orientada por cinco categorias centrais: colonialidade do poder, zonas de sacrifício, violência epistêmica, extrativismo econômico e resistência decolonial. Essas categorias permitem compreender o extrativismo não apenas como sistema de acumulação capitalista, mas também como regime de legitimação da violência física e simbólica. Ao evidenciar as conexões entre dominação, exploração e resistência, o artigo contribui para a formulação de uma estrutura interpretativa crítica sobre os impactos socioambientais do capitalismo global de fronteira na América Latina.
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