Da formulação à implementação
análise de políticas públicas e os efeitos do cadastro ambiental rural
DOI:
https://doi.org/10.63595/rcn.v7i3.20180Resumen
O Cadastro Ambiental Rural (CAR), principal instrumento do Novo Código Florestal (Lei 12.651/2012), consolida-se como uma política de Estado para o monitoramento e fiscalização ambiental no Brasil. Este artigo analisa o CAR a partir de um marco teórico pluralista, articulando as abordagens da Análise de Políticas Públicas, da Análise de Discurso e da Antropologia das Políticas Públicas para compreender suas múltiplas dimensões. O objetivo é investigar o processo conflituoso de sua formação, os discursos que o legitimaram e seus efeitos materiais enquanto tecnologia de poder. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa com métodos mistos, incluindo análise documental e bibliográfica de leis, relatórios e discursos de atores-chave. A análise pela ótica das coalizões de advocacia (ACF) revela que o CAR foi resultado de uma intensa batalha política, na qual uma coalizão vitoriosa, integrada por agronegócio e ONGs ambientalistas, hegemonizou o discurso da conciliação entre produção e conservação. Complementarmente, a antropologia das políticas públicas demonstra que o CAR opera como uma tecnologia de governamentalidade neoliberal, produzindo subjetividades, simplificando o território e gerando efeitos ambíguos: por um lado, cria um banco de dados inédito para controle; por outro, facilita a "grilagem digital", mercantiliza a natureza e despolitiza conflitos fundiários históricos. Conclui-se que o CAR é um artefato político complexo, cujos efeitos ultrapassam sua função declarada, reconfigurando as relações entre Estado, sociedade e natureza no Brasil.
Descargas
Citas
BARCELLOS, C. Políticas Públicas são feitas de Linguagem: o discurso como instrumento de análise. In: BARCELLOS, C. (org.). Políticas Públicas são feitas de Linguagem. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2015. p. 15-32.
CAPELA, J. A. V. A guinada argumentativa nos estudos de políticas públicas. Revista de Sociologia e Política, v. 23, n. 56, p. 121–143, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/MVYZkG5YQ7y8jdGQJw6mYZ8/?lang=pt. Acesso em: 15 dez. 2025.
CASTREE, N. Neoliberalising nature: the logics of deregulation and reregulation. Environment and Planning A: Economy and Space, v. 40, n. 1, p. 131–152, jan. 2008. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1068/a3999. Acesso em: 15 dez. 2025.
EASTON, D. A Framework for Political Analysis. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1965.
FERGUSON, J. The Anti-Politics Machine: "Development," Depoliticization, and Bureaucratic Power in Lesotho. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.
FOUCAULT, M. Segurança, Território, População: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HALL, P. A. When effect becomes cause: policy paradigms, social learning, and the state: the case of economic policymaking in Britain. Comparative Politics, v. 25, n. 3, p. 275–296, abr. 1993. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/422246. Acesso em: 15 dez. 2025.
HALL, P. A.; TAYLOR, R. C. R. As três versões do neo-institucionalismo. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 58, p. 193–223, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/n/58/. Acesso em: 15 dez. 2025.
HORN, C. The International and Local Politics of the Rural Environmental Registry: Brazil’s Green Currency. Development and Change, [S. l.], v. 55, n. 6, p. 1230-1258, 2025. DOI: https://doi.org/10.1111/dech.1286. Acesso em: 16 dez. 2025.
JOBERT, B.; MULLER, P. L'État en action: politiques publiques et corporatismes. Paris: Presses Universitaires de France, 1987.
KORTING, M.S. Cadastro ambiental rural: instrumento de regularização ambiental e seus efeitos no sudeste paraense. 2021. 220 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) - Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2021.
LASSWELL, H. D. Politics: Who Gets What, When, How. New York: McGraw-Hill, 1936.
LINDBLOM, C. E. The Science of "Muddling Through". Public Administration Review, v. 19, n. 2, p. 79-88, 1959. Disponível em: https://perguntasaopo.wordpress.com/wp-content/uploads/2012/02/lindblom_1959_the-science-of-muddling-through.pdf. Acesso em: 16 dez. 2025.
MILLER, P.; ROSE, N. Governing Economic Life. Economy and Society, v. 19, n. 1, p. 1-31, 1990. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03085149000000001. Acesso em: 15 dez. 2025.
MULLER, P.; SUREL, Y. A Análise das Políticas Públicas. Pelotas: Educat, 2002.
NORTH, D. C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
PACKER, L. A. Novo código florestal & pagamentos por serviços ambientais: regime proprietário sobre os bens comuns. Curitiba: Juruá Editora, 2015.
PIERSON, P. When Effect Becomes Cause: Policy Feedback and Political Change. World Politics, v. 45, n. 4, p. 595-628, 1993. DOI: 10.2307/2950710. Acesso em: 15 dez. 2025.
PORTO, J. R. A categoria "agricultura familiar" como forma-Estado. In: PORTO, J. R. (org.). Agricultura Familiar e Políticas Públicas. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2016. p. 45-68.
RIBEIRO, L. Neoinstitucionalismo e Análise de Políticas Públicas. In: RIBEIRO, L. (org.). Políticas Públicas no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2016. p. 101-120.
SABATIER, P. A. (ed.). Theories of the Policy Process. Boulder: Westview Press, 2007.
SABATIER, P. A. Knowledge, Policy-Oriented Learning, and Policy Change. Knowledge: Creation, Diffusion, Utilization, v. 8, n. 4, p. 649-692, 1987. DOI: 10.1177/0164025987008004005. Acesso em: 15 dez. 2025.
SANTOS, F. B. Lock-in e políticas públicas: o caso do PRONAF. Revista de Economia Contemporânea, v. 15, n. 2, p. 288-312, 2011.Disponível em: https://www.periodicos.ufpr.br/ret/article/view/xxx. Acesso em: 15 dez. 2025.
SAUER, S.; BORRAS JR., S. M. “Land grabbing” e “green grabbing”: uma leitura da “corrida na produção acadêmica” sobre a apropriação global de terras. Revista Campo-Território, Uberlândia, v. 11, n. 23, p. 20–45, jul. 2016. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/campoterritorio/article/view/35702. Acesso em: 15 dez. 2025.
SCOTT, J. C. Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed. New Haven: Yale University Press, 1998.
SHORE, C.; WRIGHT, S. (ed.). Anthropology of Policy: Critical Perspectives on Governance and Power. London: Routledge, 1997.
SIMON, H. A. Models of Man: social and rational. New York: John Wiley & Sons, 1957.
SOUZA, C. Políticas públicas: uma revisão da literatura. Sociologias, Porto Alegre, v. 8, n. 16, p. 20–45, jul./dez. 2006. DOI: 10.1590/S1517-45222006000200003. Acesso em: 15 dez. 2025.
TRUE, J. L.; BAUMGARTNER, F. R.; JONES, B. D. Punctuated-Equilibrium Theory: Explaining Stability and Change in Public Policymaking. In: SABATIER, P. A. (ed.). Theories of the Policy Process. Boulder: Westview Press, 2007. p. 155-188.
VECCHIONE-GONÇALVES, M.; "Financiando a Amazônia: Do Piloto de Proteção nos Anos 90 à Bioeconomia Descarbonizada do Terceiro Milênio",In: MIOLA, I. Z., et al. (org.). Finanças verdes no Brasil: perspectivas multidisciplinares sobre o financiamento da transição verde. São Paulo: Blucher, 2022, p. 85-110.
Descargas
Publicado
Cómo citar
Número
Sección
Licencia
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).



