Práticas festivas e turísticas na Comunidade Quilombola Dona Juscelina Tocantins, Brasil
DOI:
https://doi.org/10.63595/rbhcs.v17i34.19647Palabras clave:
Turismo, Quilombola., AmazôniaResumen
As festas quilombolas configuram-se como práticas sociais fundamentais para a preservação da memória coletiva e para a atualização dos saberes-fazeres ancestrais, constituindo-se em experiências simbólicas que mobilizam valores, afetos, cosmologias e estratégias de resistência. No contexto da Comunidade Quilombola Dona Juscelina, no norte do Tocantins, essas festas transcendem a função meramente celebrativa para se tornar dispositivos de agência social e mediação política, articulando modos de ser, agir e existir que desafiam as lógicas do turismo hegemônico. Neste estudo, analisam-se as práticas culturais-ancestrais associadas às festas quilombolas e seus desdobramentos no campo turístico, à luz da Teoria dos Campos de Pierre Bourdieu, mobilizando os conceitos de habitus, campo e capital. A pesquisa adota abordagem qualitativa e interdisciplinar, com base em entrevistas adaptadas da história oral com três Griôs e três membros da Associação da Comunidade, buscando compreender os sentidos atribuídos às festas e suas implicações na reconfiguração do turismo. Os resultados demonstram que as festas são expressões de um habitus festivo-turístico próprio, forjado a partir da circularidade de ritos, da sincronicidade comunitária e da diacronia da memória ancestral. Elas não apenas ativam a memória coletiva e promovem a sociabilidade, mas também inserem a comunidade em disputas simbólicas dentro do campo turístico, ressignificando sua inserção em processos econômicos e culturais mais amplos. O turismo, nesse contexto, é compreendido como campo social em disputa, no qual se confrontam diferentes agentes, capitais e interesses, que ao se apropriar das festas como forma de mediação, a comunidade reconfigura as relações entre território, identidade e economia simbólica, posicionando-se de forma ativa frente aos desafios da autodeterminação, da justiça social e do reconhecimento cultural. As festas tornam-se, assim, plataformas de reivindicação política da autonomia comunitária e da reinvenção de vínculos como o sagrado, o território e a ancestralidade. A presença dos turistas e visitantes, mediada por relações de hospitalidade e afetividade, desestabiliza os padrões tradicionais de consumo turístico e provoca deslocamentos epistêmicos, gerando nas visitas experiências de alteridade e autoconhecimento. Ao invés de mercadoria, o turismo passa a ser vivenciado como prática social, enraizada nas cosmopolíticas quilombolas e ancorada na ética do cuidado, da partilha e da reciprocidade. Conclui-se que as festas da comunidade, enquanto estruturas de significação e de sociabilidade, abrem caminho para um turismo contra-hegemônico, que valoriza a diversidade ontológica e epistemológica dos povos quilombolas. Ao evidenciar a potência das festas como práticas de mundo, este estudo contribui para a construção de uma crítica ao turismo convencional e propõe novos marcos interpretativos orientados pela ancestralidade, pela memória e pela territorialidade.
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