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  • Chamada para publicações: diálogos entre ciências sociais e psicanálise

    2020-12-17

    Tema:  Diálogos entre ciências sociais e psicanálise

    Organizadores: Marilande Martins Abreu, Arinaldo Martins Sousa, Roland Chemama

     

    Apresentação

    Freud, ao longo de sua formulação da teoria psicanalítica definiu-se em O Mal estar na Cultura, como um « sociólogo amador ». Utilizando sua descoberta do inconsciente fez importantes abordagens sobre o inconsciente e o coletivo. Mostrando-se capaz de realizar interdisciplinaridade como poucos de sua época, Freud desenvolveu importantes análises sobre o inconsciente, laços sociais e cultura. Assim, dialogou com a antropologia em Totem e Tabu, apresentando um profícuo debate crítico com James Frazer, Émile Durkheim, entre outros do seu tempo. Elaborou análises de cunho sociológico em obras como Moisés e o Monoteísmo, bem como em O futuro de uma ilusão, obras que juntamente com O Mal estar na cultura são tidas, pelos seus estudiosos, como seus textos dedicados a análises socioculturais. Como disse Freud, em Psicologia coletiva e análise do eu,  « na vida psiquíca do indíviduo tomado isoladamente, o Outro intérvem com muita regularidade como modelo, suporte e adversário e,  por isso  a psicologia individual é também  imediatamente e simultaneamente, uma psicologia social »

    Essa não foi uma via de mão única, no campo das ciências sociais o impacto da psicanálise esteve presente nos estudos de Bronislaw Malinowiski, que a partir do conceito de Complexo de Édipo de Freud, elaborou seu conceito de Complexo familiar. A psicanálise Influenciou também a escola americana Cultura e Personalidade, como se observa na obra clássica Sexo e Temperamento de Margareth Mead. E influenciou, no campo das análises político-social, estudos como Eros e Civilização de Herbert Marcuse da Escola de Frankfurt, escola que reuniu um conjunto de pensadores fortemente influenciados pelos escritos de Freud.

    Esse diálogo, frequentemente mal interpretado por alguns puristas tanto na psicanálise como no campo da ciências sociais, está presente também  na teoria lacaniana, pois se Lévi-Strauss no campo da antropologia elaborou fortes críticas ao conceito de inconsciente de Freud, construindo seu próprio conceito de inconsciente, foi ainda a teoria estrutural  fundada por Claude Lévi-Strauss, que  influenciou fortemente a leitura estruturalista do inconsciente elaborada por Lacan em sua teoria do sujeito.

     Essa interdisciplinaridade se estendeu e continua  atual. Se Roger Bastide, sociólogo francês e,  Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, se ocuparam dela foi também para demostrar como ambas, a psicanálise e as ciências sociais,  ganhariam em continuar buscando pontos de encontros (e também de desencontros) entre essas duas áreas de conhecimento. Assim, a discussão continua com autores como Zygmunt Bauman, um crítico da modernidade, ou por exemplo, nas análises psicanalíticas de Moustapha Safouan, que considera os laços sociais na formação do inconsciente.

    Mais recentemente numa obra intitulada A interpretação sociológica dos sonhos, Bernard Lahire atualiza esse debate e provoca a psicanálise e as ciências sociais a continuarem elaborando análises dialógicas do sujeito e suas relações com o coletivo. No campo da ciência política as contribuições de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau têm destacado a importância da teoria do sujeito, proposta por Lacan, para compreender o retorno do populismo e o autoritarismo no modo de vida moderno, de economia neoliberal.

    Seria muito longo citar aqui todos aqueles cujas obras portam um traço importante desse diálogo científico. Recentemente apareceram temas como processos de restruturação da produção, o capitalismo por espoliação, típico do neoliberalismo atual, bem como questões que abarcam o impacto desses fenômenos sobre a construção dinâmica da subjetividade dos indivíduos. Além disso, a aproximação entre a teoria social e os debates sobre as questões psíquicas podem constituir um meio importante para compreender os processos sociais que se desenvolvem em sociedades como o Brasil, que desde a década de 1990 passa por um acirramento de políticas neoliberais.  Não poderíamos dizer que a população, sem emprego, entra numa temporalidade de afetos como o medo e o ódio, reveladores de um sentimento profundo de impotência?

    Quais análises podem ser realizadas conjugando esforços de diferentes ciências sociais, colocando-as em relação com as noções psicanalíticas do inconsciente, afeto, pulsão, angústia, estado de desamparo? O presente número da Revista Deslocamentos busca receber artigos que contenham análises, diálogos críticos e reflexões que abordem conceitos e teorização, notadamente análises do mundo contemporâneo. Contribuindo, assim, para o diálogo entre as ciências sociais e psicanálise a partir dos laços entre sociabilidade, dimensão cultural e processos de subjetivação.

    Tema:  Diálogos entre ciências sociais e psicanálise

    Organizadores : Marilande Martins Abreu, Arinaldo Martins Sousa, Roland Chemama

     

     

    Apresentação

    Freud, ao longo de sua formulação da teoria psicanalítica definiu-se em O Mal estar na Cultura, como um « sociólogo amador ». Utilizando sua descoberta do inconsciente fez importantes abordagens sobre o inconsciente e o coletivo. Mostrando-se capaz de realizar interdisciplinaridade como poucos de sua época, Freud desenvolveu importantes análises sobre o inconsciente, laços sociais e cultura. Assim, dialogou com a antropologia em Totem e Tabu, apresentando um profícuo debate crítico com James Frazer, Émile Durkheim, entre outros do seu tempo. Elaborou análises de cunho sociológico em obras como Moisés e o Monoteísmo, bem como em O futuro de uma ilusão, obras que juntamente com O Mal estar na cultura são tidas, pelos seus estudiosos, como seus textos dedicados a análises socioculturais. Como disse Freud, em Psicologia coletiva e análise do eu,  « na vida psiquíca do indíviduo tomado isoladamente, o Outro intérvem com muita regularidade como modelo, suporte e adversário e,  por isso  a psicologia individual é também  imediatamente e simultaneamente, uma psicologia social »

    Essa não foi uma via de mão única, no campo das ciências sociais o impacto da psicanálise esteve presente nos estudos de Bronislaw Malinowiski, que a partir do conceito de Complexo de Édipo de Freud, elaborou seu conceito de Complexo familiar. A psicanálise Influenciou também a escola americana Cultura e Personalidade, como se observa na obra clássica Sexo e Temperamento de Margareth Mead. E influenciou, no campo das análises político-social, estudos como Eros e Civilização de Herbert Marcuse da Escola de Frankfurt, escola que reuniu um conjunto de pensadores fortemente influenciados pelos escritos de Freud.

    Esse diálogo, frequentemente mal interpretado por alguns puristas tanto na psicanálise como no campo da ciências sociais, está presente também  na teoria lacaniana, pois se Lévi-Strauss no campo da antropologia elaborou fortes críticas ao conceito de inconsciente de Freud, construindo seu próprio conceito de inconsciente, foi ainda a teoria estrutural  fundada por Claude Lévi-Strauss, que  influenciou fortemente a leitura estruturalista do inconsciente elaborada por Lacan em sua teoria do sujeito.

     Essa interdisciplinaridade se estendeu e continua  atual. Se Roger Bastide, sociólogo francês e,  Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro, se ocuparam dela foi também para demostrar como ambas, a psicanálise e as ciências sociais,  ganhariam em continuar buscando pontos de encontros (e também de desencontros) entre essas duas áreas de conhecimento. Assim, a discussão continua com autores como Zygmunt Bauman, um crítico da modernidade, ou por exemplo, nas análises psicanalíticas de Moustapha Safouan, que considera os laços sociais na formação do inconsciente.

    Mais recentemente numa obra intitulada A interpretação sociológica dos sonhos, Bernard Lahire atualiza esse debate e provoca a psicanálise e as ciências sociais a continuarem elaborando análises dialógicas do sujeito e suas relações com o coletivo. No campo da ciência política as contribuições de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau têm destacado a importância da teoria do sujeito, proposta por Lacan, para compreender o retorno do populismo e o autoritarismo no modo de vida moderno, de economia neoliberal.

    Seria muito longo citar aqui todos aqueles cujas obras portam um traço importante desse diálogo científico. Recentemente apareceram temas como processos de restruturação da produção, o capitalismo por espoliação, típico do neoliberalismo atual, bem como questões que abarcam o impacto desses fenômenos sobre a construção dinâmica da subjetividade dos indivíduos. Além disso, a aproximação entre a teoria social e os debates sobre as questões psíquicas podem constituir um meio importante para compreender os processos sociais que se desenvolvem em sociedades como o Brasil, que desde a década de 1990 passa por um acirramento de políticas neoliberais.  Não poderíamos dizer que a população, sem emprego, entra numa temporalidade de afetos como o medo e o ódio, reveladores de um sentimento profundo de impotência?

    Quais análises podem ser realizadas conjugando esforços de diferentes ciências sociais, colocando-as em relação com as noções psicanalíticas do inconsciente, afeto, pulsão, angústia, estado de desamparo? O presente número da Revista Deslocamentos busca receber artigos que contenham análises, diálogos críticos e reflexões que abordem conceitos e teorização, notadamente análises do mundo contemporâneo. Contribuindo, assim, para o diálogo entre as ciências sociais e psicanálise a partir dos laços entre sociabilidade, dimensão cultural e processos de subjetivação.

     

    Prazo para o envio dos artigos: 02/04/2021

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