A justiça de transição e os povos indígenas brasileiros

perspectivas de uma luta por memória, verdade e justiça

Autores/as

  • Isadora Vieira Chagas Universidade Federal de Pelotas (UFPEL)
  • Carlos Artur Gallo Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

DOI:

https://doi.org/10.63595/rcn.v7i3.19498

Palabras clave:

Justiça de Transição, Povos Indígenas, Violação de Direitos Humanos, Ditadura civil-militar no Brasil

Resumen

Este artigo analisa a aplicação dos mecanismos de justiça de transição no Brasil à luz das violações de direitos humanos cometidas contra os povos indígenas durante a ditadura civil-militar (1964-1985). O estudo problematiza a invisibilização histórica dessa população nas políticas de memória e nas medidas de justiça de transição implementadas pelo Estado brasileiro. Tem-se como objetivo identificar se e quais mecanismos de justiça de transição foram implementados para reparar violações aos direitos humanos dos povos indígenas e examinar em que medida a Comissão Nacional da Verdade (CNV) incorporou as demandas dos povos originários. A metodologia utilizada tem a pesquisa bibliográfica e documental como procedimento, de abordagem qualitativa com método hipotético. A pesquisa demonstra que a justiça de transição no Brasil foi tardia e ineficiente para tratar das graves violações de direitos humanos cometidas contra os povos originários. Ademais, o estudo evidencia ainda o cenário de retrocessos observado a partir de 2019, que comprometeu avanços institucionais já limitados.

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Biografía del autor/a

Isadora Vieira Chagas, Universidade Federal de Pelotas (UFPEL)

Graduanda em Direito na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Integrante da equipe do Núcleo de Pesquisa sobre Políticas de Memória (NUPPOME). Bolsista de Iniciação Científica do CNPq.

Carlos Artur Gallo, Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Estágio Doutoral realizado na Universidade Complutense de Madri (Espanha). Professor do Departamento de Sociologia e Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas. Coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre Políticas de Memória (NUPPOME).

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Publicado

2026-01-15

Cómo citar

CHAGAS, Isadora Vieira; GALLO, Carlos Artur. A justiça de transição e os povos indígenas brasileiros: perspectivas de uma luta por memória, verdade e justiça. Campos Neutrais - Revista Latino-Americana de Relações Internacionais, Rio Grande, RS, v. 7, n. 3, p. 99–124, 2026. DOI: 10.63595/rcn.v7i3.19498. Disponível em: https://periodicos.furg.br/cn/article/view/19498. Acesso em: 3 feb. 2026.

Número

Sección

Artigos Livres