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A questão do trauma marca a história da psicanálise e está muitas vezes presente nos seus momentos mais fortes.

Em primeiro lugar, Freud pensou que a neurose, e em particular a histeria, era devida a um trauma sexual: a «sedução» da criança por um adulto do seu ambiente, eventualmente o seu próprio pai. Renunciou a esta generalização, quando tomou consciência de que esta sedução, em muitos casos, era da ordem da fantasia, o que não significa, aliás, que as crianças nunca sejam objecto de agressões reais.

Um dos seus discípulos mais inventivos, Ferenczi, nunca renunciou, aliás, a trabalhar sobre o trauma, sobre o qual deu descrições impressionantes. Ressalta assim «em primeiro lugar a paralisia completa de toda a espontaneidade, e depois de qualquer trabalho de pensamento, ou mesmo de estados semelhantes aos estados de choque, ou de coma, no domínio físico». Nele vê a fonte de uma clivagem da pessoa «numa parte sensível, brutalmente destruída, e outra que sabe tudo mas não sente nada, de certo modo».

O próprio Freud, de resto, retomou a ideia da causalidade traumática de certos distúrbios psíquicos, mas limitou-os a situações muito particulares, como a guerra, por exemplo. Um sujeito vítima de um trauma de guerra pode reviver sem alterações, durante longos anos, na memória ou no sonho, os acontecimentos por que passou.

A obra de Lacan permite talvez uma abordagem mais estrutural. Esta poderia partir da ideia de que o que é traumático é o que, do encontro com um real desafiador, não foi simbolizado. Ora, Lacan propõe, relativamente ao sintoma em geral, uma abordagem muito esclarecedora. É certo que primeiro pensou, depois de Freud, que o sintoma vinha dizer alguma coisa, que tinha, portanto, uma dimensão simbólica. Mas, pelo menos num dos seus textos, «A terceira», diz que chama sintoma «o que vem do real». Isto deverá permitir iluminações muito novas na clínica.

Estas iluminações ganhariam também em intercâmbios mais regulares entre a psicanálise e as ciências sociais, as mesmas que a nossa revista, Deslocamentos/Déplacements, deseja promover. Pudemos ver, nos últimos anos, até que ponto os traumas de que as nossas sociedades são vítimas podem ter efeitos sobre a subjectividade individual. Pensemos aqui, por exemplo, nos massacres em massa cometidos, na França e em todo o mundo, por Daesch. Pensemos também na violência exercida pelas ditaduras na América Latina. E não esqueçamos que o trauma ligado a um surto de violência se apoia frequentemente na memória consciente ou inconsciente de uma violência anterior, a do nazismo, por exemplo, na Europa.

Assim, o eixo da nossa pergunta sobre o trauma diz respeito, para além dos psicanalistas, aos historiadores, aos sociólogos, aos antropólogos e, na realidade, a todos aqueles que procuram ter, do homem e da sociedade, uma representação que possa iluminar também a sua parte sombria.


Prazo para envio de artigos: 15 de julho de 2020.