Chamada para Artigos: Editorial

 

Na história da psicanálise temos os deslocamentos de sintoma, tão caros aos casos clínicos expostos por Freud, ou o deslocamento como um dos mecanismos de construção dos sonhos em conjunto com a condensação, o que Lacan chamaria de metáfora e metonímia. Em grego metáfora é deslocamento, ir de um lugar a outro, uma topologia talvez. Outro deslocamento é o nome do pai para os nomes do pai, sacrifícios modernos ? Qual a relação dos sacrifícios atuais com o retratado por Caravaggio no sacrifício de Isaac por seu pai Abraão ao Deus pai como prova de fé ? Ou as crianças Incas sacrificadas no Perú antigo na esperança de que os deuses fossem mais brandos? Que demanda é esta direcionada ao desejo do grande Outro? Nestes casos o sacrifício se inscreve em um sistema de trocas, algo valioso é oferecido esperando uma resposta, um retorno do grande Outro. Demanda-se algo que faz “valer a pena o sacrifício”. Enquanto sentido, quer dizer no imaginário, o sacrifício não é bom nem ruim, ele é uma demanda. No campo da antropologia foi possível abstrair, como  fizeram Hubert e Mauss, o sacrifício ritual de qualquer materialidade e formular sua unidade como importante conceito para a compreensão dos laços sociais e culturais. Detendo-se na  análise da moral que rege as ações sacrificiais de uma coletividade,  esses autores problematizam temas como contrato, dádiva,  remissão, abnegação, alma. As interpretações do sacrifício a partir de diferentes áreas de conhecimento, assim, indicam a atualidade desse simbolismo ritual. 

Durante algum tempo o sacrificado era o corpo na intenção de salvar a alma. Parece que atualmente passamos por um processo de sacrifício diferente, no qual, invertemos e passamos a sacrificar o espírito para salvar o corpo. A questão é que com o sacrifício do corpo, com a morte do corpo, como das princesas Incas ou Cristo para os cristãos, este servia como uma espécie de catalizador simbólico e visava salvar a comunidade a qual pertenciam os corpos sacrificados. Mesmo o djihadismo pode seguir esta lógica. A promessa de salvação do espírito do sacrificado e do povo ao qual ele pertence é uma condição bastante presente nestes rituais. Mas quando o espírito é sacrificado para salvar o corpo, nós temos uma mudança com outras consequências sociais. Quem nos mostra de forma perturbadora esta inversão no processo de sacrifício é o Fausto de Goethe, escrito não por acaso, em plena revolução industrial. O corpo salvo quer somente gozar a qualquer preço. Fausto foi escrito no pleno período da Revolução Industrial, na transição de métodos da produção artesanal para a produção por máquinas. Talvez por isso, Fausto quando está prestes a cometer suicídio, se debate primeiro com um espírito ao qual ele não se reconhece, depois com um esqueleto e por fim com uma máquina que herdou do pai e não sabe o que fazer com ela. Ele se dirige a máquina dizendo: “...vocês instrumentos que nunca tiveram almas estão com suas cordas, cilindros e dentes a meter-me a bulha”.

 

Esta tragédia contada no ápice da revolução industrial relata a entrega da alma de um doutor na busca de um progresso do conhecimento, momento este em que as cidades começam a se tornar cada vez maiores, mais populosas, momento da produção em série, do trabalho assalariado, do crescimento da burguesia. Vários romancistas e teatrólogos retomaram a história de Fausto ao longo da história. No Fausto de Thomas Mann temos um romance escrito em 1947, após o fim da segunda guerra mundial relatando a entrega da alma da Alemanha ao totalitarismo na busca pelo progresso, tecnologia e uma Alemanha soberana. E o que Fausto pede em troca de sua alma?  Tudo menos inércia.

“O que preciso e quero, é atordoar-me. Quero a embriaguez de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubamento das sumas aflições. Estou curado das sedes do saber; de ora em diante às dores todas escancaro esta alma. As sensações da espécie humana em peso, quero-as eu dentro em mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde à vontade a mente minha os abrace, os tateie; assim me torno eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo perdida for, me perderei com ela.”

 

Ele pede um gozo sem limites em troca de sua alma, não se trata mais aqui, como nos sacrifícios do corpo de uma salvação da comunidade ou uma promessa de vida eterna. Este gozo sem limites já foi abordado por psicanalistas comoCharles Melman e Jean Pierre Lebrun e por filósofos como Dany-Robert Dufour, Bernard Stiegler ao se referirem ao sistema econômico baseado no ultra-liberalismo. No caso do sacrifício de um objeto como o corpo colocamos no lugar da perda um significante que pode adquirir uma função fálica, quando o sacrificado é a função significante, de espaço falho, de algo que capenga, o que tentaremos colocar no lugar, quer dizer na troca estabelecida pelo ritual de sacrifício, são objetos que poderiam tamponar este espaço de entropia que faz com que em toda troca exista uma perda. Estes objetos nós os produzimos em série e através deles formamos um outro tipo de laço social, no qual a demanda de reconhecimento é direcionada a partilha dos mesmos objetos de consumo comuns. Para voltarmos ao significante sacrifício, no lugar deste nó em que o imaginário se enlaça ao simbólico demandando um real impossível, ou seja, que este corpo viva para além da morte, teremos um deslocamento no qual o imaginário se enlaça ao real demandando uma resposta a um simbólico sem falhas, um sentido que seria total, sem a interferência disso que é, mas não é, que é bom e ruim ao mesmo tempo. Quando o sacrifício é do corpo se cria com o processo um totem que tende a se estender pelo tempo através do significante que pode se instalar neste lugar. Quando o sacrificado é a alma, busca-se um objeto que faça a troca ser perfeita, sem restos que proliferam dívidas. Mas o que carrega a alma ao longo dos anos é a palavra. Uma palavra pode permanecer por séculos e séculos, pode ser cortada, misturada, apagada, ressuscitada, violada. O corpo tem outros limites, ele não se mantém no tempo, ele se desfaz, não é passível de ressurreição. O corpo salvo pelo sacrifício da alma tende a se comportar como se fosse uma palavra, ele vai ser violado, cortado, tentado nos gozos mais impossíveis, seja o de viver para sempre, não envelhecer, manter-se o mesmo com significados diferentes, tal qual uma palavra. Dany-Robert Dufour no “Divino Mercado” diz que o novo Deus é o mercado, neste sentido o que derivou da revolução industrial, são corpos sedentos de objetos que possam suportar a relação com a comunidade que antes era suportada pela alma, pelos rituais de passagem, por um terceiro além da relação Eu/Tu.  A produção de objetos em série, produção de objetos iguais, nos faz termos a ideia de que se consumirmos o mesmo objeto então fazemos parte da mesma comunidade. 

Em Psicologia da Massas e Análise do Eu, Freud problematiza a relação do Eu com o objeto de amor no estado amoroso, considerando que o objeto vai se tornando pouco a pouco mais precioso, mais magnífico e convoca para si todo o amor que o Eu poderia provar por ele mesmo, o que pode ter por consequência o sacrifício do Eu. Freud ainda vai relacionar este sacrifício do Eu em benefício de um Ideal do Eu, além do estado amoroso, a hipnose e a formação de grupos diversos como os militares e os religiosos. Neste sentido alguns suicídios poderiam ser uma espécie de sacrifício ? O que sacrificamos para chegarmos a nossa civilização atual ?

 

Abrimos então o convite ao envio de artigos sobre o tema do “Sacrifício” para este primeiro número  da Revista Interdisciplinar de Psicanálise Deslocamentos/Déplacements. 

Recebremos artigos para avaliação até 15 de julho de 2019. Os artigos podem sr enviados por este site, bastando se cadastrar como autor e enviar o texto, também poderá ser enviado para o email da Revista revistadeslocamentos@gmail.com.